sexta-feira, 31 de maio de 2013
Houve, há muito tempo atrás, uma menina rica chamada Linda. Linda tinha
bonecas de todos os tipos, jogos de todos os formatos, bichos de
pelúcia capazes de formar um zoológico inteiro. Linda tinha tudo o que
queria. Seu pai era dono de uma fábrica de meias e trabalhava o dia
inteirinho. Não tinha muito tempo para a filha única, órfã de mãe, e
achava que deveria compensar sua ausência cobrindo a filha de luxos.
Linda, por sua vez, parecia bastante satisfeita com sua vida.
Linda não tinha irmãos, nem primos. Estudava em casa, com um professor
particular. As únicas crianças com quem tinham contato eram os filhos
dos operários da fábrica de seu pai.
O pai de Linda, além de rico, era um homem muito poderoso: mandava e
desmandava na cidadezinha onde moravam, Vila das Neves. Mas era também
um homem bom e justo, que procurava agradar a todos. Todo Natal, fazia
uma grande festa em sua casa e convidava todos os seus operários.
Distribuía brinquedos para as crianças e dava caixas de bombons para os
adultos. Seus funcionários adoravam-lhe – diziam que não havia patrão
mais generoso.
Nestas ocasiões, o pai de Linda dizia à filha que deveria receber os
convidados como uma mocinha bem-comportada, e aproveitar para brincar
com as crianças. O pai de Linda achava que Linda deveria ser amiga dos
filhos dos operários, quase todos da mesma idade que ela. Mas Linda não
pensava assim.
Todo ano era a mesma coisa: as crianças chegavam à festa eufóricas,
ansiosas para brincar. Viam os brinquedos incríveis de Linda e pediam
que lhes emprestasse. Todo ano, a mesma resposta. 'É meu, meu pai me
deu, não empresto para ninguém!' era o que Linda dizia. Seu egoísmo era
tão grande que, em um destes anos, proibiu as crianças de entrarem em
seu quarto. 'Não quero que ninguém toque nas minhas coisas!', decretou.
De todas as coisas de Linda, o que ela mais gostava era da sua coleção
de globos de neve. Seu pai, por conta dos compromissos de trabalho,
viajava o mundo. Na volta, trazia-lhe muitos presentes e, dentre eles,
sempre trazia um globo de neve. Linda tinha verdadeira adoração por sua
coleção: colocava seus globos em cima da lareira do quarto, um ao lado
do outro. Ficava admirando-lhes a beleza, e dizia a todos: 'quando
crescer, eu vou tomar conta da fábrica de papai, e vou viajar o mundo
como ele. Vou até cada um destes lugares que estão no globo...'
Um dia, começou na fábrica um operário muito inteligente, que logo
tornou-se amigo do pai de Linda. Ele tinha uma filha da idade de Linda,
chamada Míriam. Em comum, as duas meninas só tinham a idade: Míriam era
generosa, dividia tudo com os outros. Tinha uma porção de amigos e todos
gostavam dela. E as crianças contaram-lhe histórias e mais histórias de
Linda, o que fez com que Míriam tomasse uma grande antipatia pela
menina, antes mesmo de conhecê-la.
Chegou a festa de Natal, o pai de Linda organizou tudo e, no dia
marcado, estavam todos os operários com suas famílias presentes. As
crianças, como sempre, na euforia de ver os brinquedos novos de Linda.
Menos Míriam.

Míriam chegou e foi apresentada à Linda. Cumprimentou-lhe e virou-lhe as costas, sem prestar-lhe muita atenção. Chamou, então,as outras crianças: 'Escutem, vocês, venham cá.'
- Que há, Míriam? - quiseram logo saber.
- Vocês dizem que esta menina não divide os brinquedos, não é?
- Não mesmo! - disse João, um menino que, no ano anterior, levara um tapa na mão ao tentar pegar um jogo de Linda.
- Pois então. Ela parece ser egoísta demais. Deixem ela para lá! Olhem que jardim lindo temos para brincar!
- Temos jardim, mas não temos brinquedos! - disse Ana, filha de um dos operários mais antigos da fábrica. - O pai da Linda só dá os brinquedos na hora em que vamos embora...
- E quem precisa de brinquedos? - perguntou Míriam
- Como vamos brincar sem brinquedos – perguntaram, juntas, as outras crianças.
- Isto é fácil! Tem muita coisa para a gente fazer. Eu sugiro a primeira brincadeira: pique- esconde! Quem quer brincar?
- Eu quero – disseram todos.
- Vou ser o pegador! – disse João – Podem se esconder que eu já vou começar a contar.
As crianças começaram a correr felizes, por todo canto do jardim.
Brincaram de pique- esconde, pique- pega, pique -cola e tudo quanto é
tipo de pique que há.
Linda,
por sua vez, tinha decidido, outra vez, que ninguém entraria em seu
quarto. Estava trancada lá dentro, esperando as crianças chegarem para pedir-lhe que lhes emprestasse brinquedos. Só que as horas começaram a passar e, estranhamente, ninguém veio.
Linda olhou pela janela. Viu toda aquela bagunça que as crianças
estavam fazendo. Ficou enfurecida e chamou a governanta da casa aos
berros:
- Laudelina, venha já aqui!
- Pois não, Lindinha, o que há?
- Como o que há! Você não vê? Não ouve? Olha a algazarra que está acontecendo no jardim.
- Ah, isso. São os filhos dos operários brincando.
- Pois mande que parem, imediatamente!
- Lindinha, isso não vai ser possível...
- Como não vai ser possível? Eu estou mandando que parem, e parem agora! Já! É uma ordem minha!
- Acontece que seu pai autorizou as crianças a brincarem no jardim. Sua ordem contraria as ordens de seu pai.
- Mas... o que? Vou agora mesmo falar com ele!
Linda saiu pisando firme, disposta a acabar com a brincadeira de todos.
Logo avistou o pai, conversando com alguns funcionários.
- Papai, papai.
- Sim, filhinha?
- Olha a bagunça que estão fazendo no jardim! Eu quero que parem com isso. E eu quero que parem agora!
- Não é bagunça, minha filha. É brincadeira de criança. E me entristece ver que você não está lá. Por que você não vai lá brincar com as outras crianças?
- Eu? Me juntar a eles? Você está gozando de mim, papai!
- De forma nenhuma! Espere um minutinho...
E então, o pai de Linda sussurrou algo no ouvido do homem que estava ao
seu lado. Em dois minutos, o homem saiu e voltou, trazendo uma menina
pela mão.
- Olha, Linda, está é a Míriam, você foi apresentada a ela mais cedo. Ela tema sua idade, está vindo pela primeira vez aqui em casa. Por que você não a chama para subir até seu quarto e brincar com você?
- Eu não vou fazer isto! - disse, rispidamente, Linda.
- Deixe-me repetir, minha filha. De um jeito que você entenda. Esta é Míriam, nossa convidada. Eu quero que você suba agora, e a leve para brincar com você.
- Mas, papai, eu...
- Isto é uma ordem. Discussão encerrada.
Muito a contragosto, Linda murmurou, 'vamos' para Míriam, e saiu
andando na frente. Míriam, por sua vez, não queria ser grosseira com o
pai de Linda, que, a esta altura, já era um bom amigo de seu pai. Mesmo
contrariada, seguiu a menina.
Quando entraram no quarto de Linda, Míriam levou um susto. Tinha ouvido
os amigos dizerem das coisas maravilhosas que haviam ali, mas vê-las de
perto era completamente diferente.
- Nossa! - exclamou, surpresa
- O que é? - Linda, sempre grosseira, não estava querendo conversa.
- O seu quarto... parece uma loja de brinquedos!
- É tudo meu, só meu, muito meu! - disse Linda.
Distraída, Míriam andou até uma pequena boneca, que estava em cima de uma cadeira.
- Que boneca mais linda... - disse, enquanto pegava a bonequinha.
- É minha, só minha, muito minha! - respondeu Linda, arrancando-lhe a boneca das mãos.
- Ora, deixa de ser egoísta! Que adianta ter tantos brinquedos e ninguém para brincar com você?
- Eu não preciso de ninguém para brincar comigo, só preciso dos meus brinquedos. Meus, só meus, todos meus! Ninguém toca, ninguém pega, ninguém brinca. Só eu!
- Ah, mas você é mesmo muito boboca! - retrucou Míriam, caminhando para junto da lareira.
- Não mexe aí! - Linda assustou-se ao perceber para onde a menina ia.
- Aí onde, tá maluca? - Míriam não via nada demais na lareira.
- Na minha coleção de globos de neve! Não gosto que cheguem perto da minha coleção de globos de neve! - e, dizendo isso, Linda correu para a direção de Míriam.
Míriam, já muito zangada com a atitude de Linda, pegou um dos globos de neve, só para irritá-la.
- Larga o meu globo! - gritou Linda.
- Não largo! - respondeu Míriam.
- Larga já! Agora! O globo é meu, só meu, muito meu! - gritou, ainda mais alto, Linda.
- Você prefere colecionar cacarecos do que ter amigos. Pois olha o que eu acho do seu lindo globo de neve! - e, com raiva, Míriam jogou o globo de neve contra a parede. Na mesma hora, o vidro se partiu em mil pedaços pelo quarto.
- Sua... sua...sua... - Linda estava sem palavras. - Eu vou te pegar! Vou partir a tua cara! - gritou Linda, furiosa.
- Mas você vai ter que me pegar primeiro! - e, dizendo isto, Míriam saiu correndo pela porta do quarto.
- Eu te pego! - respondeu Linda, correndo atrás dela.
Míriam correu em disparada pelo corredor, desceu as escada e logo
alcançou o jardim. Linda seguia atrás dela, as duas correndo loucamente
pela casa. Rodaram o jardim várias vezes, correram durante quase uma
hora, sem parar. Até que, num momento, Linda a alcançou.
- Te peguei! - disse Linda. E, em seguida, caiu na gargalhada. Míriam riu junto.
- Vai me bater? - perguntou Míriam.
- Por que? - respondeu Linda.
- Por ter quebrado o seu globo. Não era por isso que você queria me pegar?
- Ah, é. Já tinha esquecido. - disse, honestamente, Linda.
- Desculpe, eu não devia ter quebrado o seu globo.
- Não tem problema. Eu tenho outros.
As
duas, então, começaram a conversar. Linda contou das viagens do pai,
dos lugares que queria conhecer. Míriam contou da escola, das coisas que
fazia. Passaram o resto da tarde juntas, conversando e brincando.

Este
foi o último Natal em que as crianças não puderam brincar com as coisas
de Linda. No ano seguinte, Linda pediu que seu pai a matriculasse na
escola, para ela estudar junto com os filhos dos operários. Fez uma
porção de amigos. Na festa de Natal seguinte, ninguém precisou pedir
brinquedo emprestado: na véspera da festa, Linda tinha arrumado jogos,
bolas, bonecas e carrinhos no jardim, para que todos pudessem brincar à
vontade. Linda divertiu-se muito com os amigos. Principalmente com
Míriam, que desde o ano anterior tornara-se sua melhor amiga.
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