sexta-feira, 31 de maio de 2013
Havia, há muitos e muitos anos, uma enorme floresta verde onde o ar era puro e os bichos andavam despreocupados. Nesta floresta, vivia um indiozinho chamado Uirá e toda sua família. Uirá gostava de acordar cedo, junto com o sol, e correr pela mata. Quando tinha fome pegava uma jangada e ia pescar. Nunca pegava além do que precisava para comer. Tinha, todos os dias, frutas, legumes, verduras e peixes em abundância. Uirá era um menino muito feliz.
Um dia, ouve um grande estrondo vindo de longe. O indiozinho e seus familiares nunca tinham ouvido aquele som. Acharam que era sinal de alguma coisa, mas não sabiam do que. Ajoelharam-se e rezaram. 'Que o Deus Trovão nos proteja!'
No dia seguinte, o ruído ficou mais alto. No outro, ainda mais. E então viram, de longe, o que causava aquele barulho. Algo que vinha do mar e eles nunca tinham visto antes. Seria um bicho? Seria um Deus? O que era aquilo grande e barulhento que se aproximava mais rápido do que qualquer índio podia nadar?
Aquilo era um navio que atravessou todo o mar e atracou ali, naquela praia, no meio daquela floresta verde, em um dia de sol. De dentro do navio saíram pessoas. E estas pessoas eram muito diferentes dos índios.
Os índios perceberam quem parecia ser o cacique daquela tribo. Era um homem muito muito branco que viera do outro lado do mar. Parecia ser o dono de tudo. E parecia querer ser o dono deles também.
O homem muito muito branco reparou que os índios andavam nus. E disse: 'vocês tem que se vestir!' E os índios acharam muita graça naquilo de ter que se vestir. Mas o homem muito muito branco disse que as roupas eram bonitas e elegantes e que eles se sentiriam bem. E então os índios começaram a usar roupas. Uirá, o indiozinho, ganhou um short amarelo da cor do sol e gostou de sua roupa.
No outro dia, o homem muito muito branco pediu que construíssem uma mesa. Em cima dela, pôs uma imagem. Disse que todos deveriam se ajoelhar e rezar junto com ele, agradecendo a Deus a dádiva da vida. Uirá e sua família gostaram muito disto de agradecer a dádiva da vida. Sempre agradeciam a Tupã e todos os outros deuses por suas vidas, seus alimentos, seus animais. Uirá e os outros índios eram muito espertos e sabiam que não importa o nome do Deus. O importante é a fé, e por isso ajoelharam-se e rezaram junto ao homem muito muito branco.
O homem muito muito branco disse que apenas legumes, verduras, frutas e peixes não faziam uma refeição decente. Ensinou-lhes a comer diferentes tipos de carne. E os índios gostaram muito de descobrir novos sabores.
Um dia o homem muito muito branco achou que as ocas nas quais viviam não eram confortáveis o suficiente. E tratou de mudar tudo: pôs todas as ocas abaixo e começou a construir edifícios. Com o passar do tempo, os edifícios foram ficando cada vez mais altos.
Uirá e sua família começaram a ficar inquietos. Sentiam-se estrangeiros em sua própria terra. O homem muito muito branco disse que deveriam se mudar, e mandou todos os índios para longe dali. Tristes, Uirá e seus familiares arrumaram suas coisas e deixaram para trás sua morada.
O tempo foi passando. O homem muito muito branco foi mudando cada vez mais coisas - a língua, a religião, os hábitos alimentares tinham sido pouco. O homem muito muito branco queria mudar tudo. Eventualmente, conseguiu.
Até que um dia, o homem muito muito branco ficou doente. Doente de uma doença que ninguém sabia o que era. Chamaram médicos, especialistas do mundo todo vieram vê-lo. Ninguém sabia o que ele tinha. Desesperado, o homem muito muito branco pediu que procurassem pelos índios e lhe trouxessem o pajé. E assim foi feito.
Quando chegou, o pajé examinou e disse: 'tem cura'. Todos ficaram numa felicidade que só, principalmente o homem muito muito branco. Mas então o pajé disse:' mas para você se curar, tem que vir conosco.' O homem muito muito branco teve receio, mas sabia que não tinha outro jeito. Foi com o pajé para a tribo dos índios.
Uirá e seus familiares não tinham mais uma grande floresta verde. Tinham um pequeno pedaço de terra no qual se esforçavam para manter viva sua cultura. Quando chegaram, o pajé disse: 'viva do nosso jeito'. O homem muito muito branco achou que ele estivesse zombando dele, mas não. Ele falava sério. E como o homem muito muito branco estava doente, tratou de obedecer.
O homem muito muito branco voltou a respirar ar puro. A comer apenas legumes, verduras e frutas frescos. Comia muito peixe, e carne em ocasiões especiais. As roupas que usava eram folgadas e confortáveis. Voltou a andar descalço, brincar na areia. Voltou a correr e rir junto com Uirá e os outros curumins. Em pouco tempo, o homem muito muito branco estava completamente sadio e podia voltar para casa.
Então o homem muito muito branco voltou para casa. E, ao perceber o que era a sua casa, chorou. Ele havia destruído a floresta verde, havia sujado rios e mares, havia matado animais para fabricar sapatos e casacos, havia sido ganancioso ao extremo.
Hoje, o homem muito muito branco tenta reconstruir a floresta. Planta novas árvores, limpa os rios, trata bem dos animais. E ensina a todos o que aprendeu. Tudo o que fazemos, tem consequência. Só existe uma terra, só existe a certeza de uma vida, só existe uma quantidade limitada de água. Se não tratarmos direito dos nossos bens, logo não os teremos. E é por isso que o homem muito muito branco agora vai para os quatro cantos do mundo ensinando os outros a cuidar melhor do nosso planeta. Quando alguém diz que não sabe o que fazer, como cuidar da Terra, ele sorri. E então diz: 'na dúvida, faça como um índio faria!'

Desde que saiu do ovo, Zelda era uma galinha diferente das demais. Todos os pintinhos gostavam de ficar ciscando pelo pátio da granja, comendo milho e assustando as formigas. Mas aquela pintinha desajeitada não ciscava. Comia um tantinho do milho e ia para além do pátio, observar as flores no jardim. O dono da granja ria muito, dizia: 'esta pintinha acha que é abelha e quer viver no meio das flores!'
Quando cresceu, não teve escapatória e Zelda foi colocada dentro da granja, junto com as outras galinhas. E como todas as outras tinha uma função definida – era uma galinha chocadeira, assim como suas irmãs, primas e amigas. As galinhas adoravam a granja e divertiam-se pondo e chocando os ovos. Era um cacarejar sem fim, todas sempre tinham uma novidade para contar. Todas, menos Zelda.
Zelda sentia-se perdida ali, no meio das outras. Sabia que não tinha nascido para ser chocadeira. Queria uma vida diferente, queria flores, queria cor! E quando dizia isto para as outras galinhas, todas a olhavam com admiração e espanto: 'e o que você quer fazer da vida, Zelda?' Ela parava e pensava, pensava, pensava. Suspirava e dizia: 'não sei o que quero fazer. Mas sei que não quero ser chocadeira!' As outras diziam que se ela não sabia o que queria fazer ela tinha mais é que continuar chocando, mesmo. E assim os dias iam passando.
O dono da granja sempre ganhava novas galinhas. Um dia chegou uma nova galinha à granja. Esta galinha vinha de uma cidade grande e já tinha passado por vários lugares. Conhecia um pouco de tudo. E trouxe novidades incríveis. Contou para Zelda e as outras que havia uma galinha fazendo um sucesso tremendo como cantora. 'Vocês precisam ver, ela tem cd, tem dvd, é um estouro! Todas as crianças gostam dela.'
De todas as galinhas, Zelda foi quem mais gostou de ouvir aquilo. Era isso! Também ela sentia que tinha alma de artista. Pronto, estava resolvida a charada. Zelda não era chocadeira, era cantora. Anunciou aos quatro ventos sua descoberta e disse que daria um show na granja.
Zelda começou a praticar os seus popós. 'Po póóóó, Pó pó pó póóóó'. Mas era desafinada demais! Ela começou a achar que talvez não levasse jeito para coisa, mas resolveu insistir. Chamou algumas galinhas bem amigas e fez um mini show, para ver o que as outras achavam.
Coitadinhas! Ao final da apresentação de Zelda, as galinhas estavam numa agonia de dar dó. Nunca tinham escutado nada tão ruim na vida. Com jeitinho, disseram a Zelda que, cantora, ela não era.
Zelda ficou arrasada! Voltou a chocar, mas cada dia que passava era um martírio para ela. Até que teve outra ideia. E se fosse dançarina? Ela gostava muito de música. Se não sabia cantar, vai ver que daria certo dançando. Começou, imediatamente, a ensaiar seus passinhos. Dava rodopios, cambalhotas, divertia-se muito dançando. Mas... toda vez que dançava, caía. Caía de bico, caía de bumbum, caía com a cara no chão! Até que uma hora caiu feio e torceu a patinha. O veterinário veio, fez curativo, colocou Zelda de repouso. As outras galinhas começaram a ficar preocupadas: 'Zelda, você não quer ser chocadeira. Mas não é cantora e nem dançarina. Deste jeito, você sai da granja, mas para virar uma canja!' Zelda começou a temer que algo assim pudesse acontecer. E sofria, como sofria! Será que passaria a vida inteira chocando?
Enquanto estava de repouso, os sobrinhos do dono da granja vieram passar uns dias de férias por lá. Era uma criançada agitada, que não parava quieta um minuto. As galinhas ficavam numa inquietação só. As crianças gostavam muito de pintar, e levaram tintas das mais diversas cores para lá. Espalharam papel no chão e pintaram de tudo. Quando saíam, recolhiam os papéis. Mas deixavam uma sujeira danada: a areia ficava toda colorida. Zelda achava aquilo lindo demais.
Um dia, cansada de ficar de pé pro alto de repouso, Zelda resolveu dar uma olhada de perto na areia colorida. Pegou um grão, mudou de lugar com outro. Depois outro, e outro, e outro, durante horas, sem parar. No final do dia, cansada e feliz, observava o que tinha feito quando uma das crianças se aproximou e gritou: ' que lindo!' O dono da granja, sua esposa, as outras crianças e as galinhas vieram ver o porquê de tanto rebuliço.
De grão em grão, Zelda tinha mudado a ordem das cores e feito uma linda paisagem de areia no chão do pátio. Todos ficaram estupefatos com a beleza daquilo. O dono da granja, incrédulo, no dia seguinte deu mais areia colorida para ver o que Zelda era capaz de fazer. E novamente ela fez uma paisagem belíssima.
E assim foi que Zelda, que sempre soube que não era chocadeira, revelou sua inquieta alma de artista. O dono da granja começou a cobrar ingressos e todos queria ver a galinha que fazia arte. Zelda ensinava seus truques para outras galinhas – muitas delas também achavam que não tinham nascido para chocar – e, num piscar de olhos, a granja tornou-se um museu a céu aberto, com as lindas obras de Zelda e suas discípulas.
Zelda adora o que faz. Trabalha muito mais do que antes, mas ama cada minuto do seu dia. Para quem pergunta como sua vida mudou tanto, ela apenas diz: 'não mudou. Tomou o rumo certo! Às vezes todo mundo diz que você deve ser de um jeito, ou fazer algo de uma determinada forma. Mas, se você está infeliz, por que seguir o que os outros dizem?'
Na vida, muitas vezes, é difícil dizer o que é o certo para cada um. Mas o errado é bem fácil. Se você não está contente com o que é ou com o que faz, mude! Tente de outro jeito, faça diferente! Errado é deixar os outros decidirem a vida da gente...
Assim que ele nasceu, trataram de lhe avisar: 'você é o rei de tudo, aqui.' Sim, ele mesmo. O Leão. Que, ao nascer, era um leãozinho fofinho, peludo, que mais parecia um bichinho de pelúcia do que o rei do que quer que fosse. Mas ninguém fica bebêzinho para sempre e também o leãozinho logo cresceu.
O leão não sabia o que significava ser o rei dos animais, o rei da floresta. Nunca lhe disseram exatamente a sua função, apenas que deveria cuidar de tudo. E ele ficava encafifado com isto. Como deveria cuidar de todos? O que era o melhor para todos?
Assim que cresceu um pouquinho, o leãozinho começou a andar pela floresta perguntando aos outros animais o que eles achavam que era o melhor para todos. Ao invés de ajudá-lo, sua pesquisa só lhe deixou mais confuso. Cada animal tinha uma opinião diferente do que era melhor para todos. Na verdade, cada um só dizia o que era melhor para si, não pensavam na coletividade.
O pai do leãozinho, o Sr. Leão, vendo que seu filho não sabia como agir, chamou-lhe para uma conversa séria.
  • Meu filho, em breve, eu me aposento. Eu e sua mãe vamos viajar, conhecer o mundo. Você irá assumir minhas funções.
  • Eu sei, papai – respondeu o leãozinho.
  • Sabe, mas não age como tal. Você é o rei da floresta!
  • Eu sei, papai.
  • Pois então pare de perguntar o que os outros pensam. Você é o rei, você decide o que é o melhor para todos!
  • Mas... e se eu achar errado? E se o que eu penso que é o melhor não é?
  • Tanto faz. Você é o rei, você decide e pronto. Eu vou te mostrar a mesma coisa que o meu pai me mostrou quando eu tinha a sua idade e as suas dúvidas.
E então o Sr. Leão levou o leãozinho para muito além da floresta. Andaram durante alguns dias até chegarem bem perto de uma cidade. O Sr. Leão avisou que só poderiam andar à noite, porque ninguém poderia vê-los. E foi numa noite que ele levou o leãozinho para um lugar mágico. Nele, havia um grande estacionamento, com carros parados uns ao lado dos outros. E, na frente de todos os carros, uma enorme tela branca. De repente, a tela iluminou-se. No meio dela, surgiu um enorme rosto de leão. Ele rugia alto, virando a cabeça. Parecia a criatura mais forte de todo o mundo. O leãozinho assistiu encantado àquela cena.
De volta para casa, o Sr. Leão deu seu conselho 'seja sempre como o leão que ruge alto!', que tinha sido o mesmo conselho que recebera de seu pai, muitos anos antes.
O leãozinho começou a treinar seu rugido. Em pouco tempo, rugia tão alto quanto o leão do filme. E estava grande o suficiente para assumir o comando da floresta.
O sr. e a sra. Leão arrumaram as malas, despediram-se do filho e colocaram o pé na estrada. Estavam querendo viajar há muito tempo e agora, finalmente, tinham a oportunidade.
E assim o leãozinho virou o Leão, o rei da floresta. De início, tudo permaneceu igual, sem que nenhum animal se desse conta de que ele agora comandava a bicharada. Até que um dia o lobo brigou com o macaco e os dois foram reclamar com o rei, pedindo que ele resolvesse o problema.
O Leão não sabia o que fazer, então fez a única coisa que sabia: rugiu alto, muito alto. O lobo e o macaco levaram um susto tremendo e saíram correndo dali. O leão ficou satisfeito. 'Resolvi a desavença', pensou.
Mais problemas surgiram, mais rugidos. O Leão achava que bastava rugir alto e forte que tudo se resolvia. Mas isto não era verdade. E foi assim que, uma hora, os problemas pararam de surgir.
Na verdade, os problemas continuavam acontecendo, como sempre acontecem. Mas os animais tinham tanto medo do Leão que não se aproximavam dele. Nomearam a girafa, que era justa, como 'juíza das causas florestais' e pronto. Surgia um problema, lá iam os animais consultar Dona Girafa. Ela pensava, ponderava, às vezes levava a questão ao rinoceronte, pedia opinião. E então solucionava o problemas. Todos ficavam muito felizes, sempre, com suas resoluções.
Todos, menos o Leão. Conforme o tempo foi passando, ele começou a se sentir muito sozinho. Não tinha amigos, não tinha com quem brincar, conversar: ninguém se aproximava dele. E ele foi ficando cada vez mais triste.
Um dia, o Leão saiu para dar uma volta. Foi até o riacho se refrescar. Chegando lá, encontrou o Elefante, que brincava de jogar jatos d'água no ar. Ao vê-lo, o Elefante fez cara de espanto, e já ia saindo de fininho, quando o Leão o chamou:
  • Elefante, não vá embora, por favor.
  • Sim, majestade – o Elefante estava azul de medo.
  • Podemos nos refrescar juntos, bater um papo.
  • Sim, majestade.
O Leão começou a contar das dificuldades de ser o rei da floresta, ter que tomar conta de todos. Contou de como treinava o seu rugido, e do quanto todos estavam satisfeitos, que não havia mais problemas na floresta.
E foi aí que o Elefante, mesmo com medo, resolveu contar a verdade ao Leão. Contou que todos o temiam, mais do que respeitavam. Contou dos problemas da floresta, da Dona Girafa e suas soluções.
O Leão ficou estupefato! Tudo aquilo acontecendo debaixo do seu nariz sem que ele tomasse conhecimento. Resolveu marcar uma audiência com a Dona Girafa. Conversaram durante horas. E então o rei da floresta convocou todos os animais à sua presença. E decretou:
  • A partir de hoje, todos governamos esta floresta! Eu sou o rei, e minha função é impedir que alguém de fora nos faça mal. Para isto é que serve o meu rugido.
Os animais entreolharam-se, sem saber o que pensar. Estaria ele falando a verdade? O Leão continuou o seu discurso:
  • A Dona Girafa e a Dona Coruja formam a junta da resolução. Todos os problemas deverão ser levados a elas. Elas analisarão e resolverão todos os problemas. Os que forem de difícil solução, irão encaminhar ao Sr. Rinoceronte, que emitirá um parecer. O Sr. Tigre será o chefe da segurança, que contará com a ajuda dos senhores Lobo, Hiena, Urso. Todos deverão defender a nossa floresta dos invasores...
E assim, um por um, o Leão foi dando função aos outros animais. Até as minhocas tinham uma função: manter o solo fértil. Todos ficaram muito satisfeitos com suas novas atribuições.

Ao final do discurso, o Leão disse:
  • E é assim que tem que ser. Todos nós tomando conta uns dos outros, pensando sempre no bem-estar do próximo. Todos cresceremos, produziremos juntos e seremos felizes assim.
O Leão estava certo. A floresta tornou-se um lugar único, onde todos ajudavam uns aos outros. Ninguém pensava só em si mesmo, todos queria o bem-estar geral. E foi assim que aquela pequena floresta, perdida no meio de tantas outras, tornou-se um lugar onde todos eram amigos e só faziam o bem. O lugar mais feliz do mundo, que deveria servir de exemplo para todos os outros...
Havia, há muitos e muitos anos, em um reino distante, um rei bondoso que era adorado por seu povo. O rei era justo e o povo feliz. Este rei era casado com uma linda rainha, que o amava apaixonadamente. Tinha muitas riquezas e o reino era próspero. O rei tinha tudo para ser feliz. No entanto, não era.
Por mais que tentasse, o rei sentia um grande vazio em seu peito, uma enorme tristeza. Ele passava os dias cuidando de seu povo para que todos estivessem contentes. Era do tipo que fazia o bem sem olhar a quem, e sentia-se bem consigo mesmo. Mas, feliz, não era.
Um dia, o rei resolveu sair para dar uma caminhada além dos campos do reino. Andou durante algumas horas, até encontrar um pequeno riacho. Sentou-se à beira das águas e tirou suas botas. Colocou os pés na água fria, enfiou as mãos e molhou seu rosto. Que sensação boa! Quanto mais tempo ele permanecia ali, às margens do riacho, melhor se sentia. Até que, de repente, sentiu um vulto à sua espreita. Assustou-se, levantou e gritou:
  • Quem está aí?
Ela surgiu detrás de uma árvore. Uma bela moça, com longos cabelos dourados e olhos tão azuis quanto a cor do rio. Ao ver o rei ali, diante de si, abriu o mais doce dos sorrisos.
O rei esfregou os olhos com força. 'Será possível?', pensou? Toda aquela tristeza que sentia parecia ter evaporado e uma enorme onda de felicidade invadia todo seu ser. Caminhou até a moça, deu-lhe um beijo na face. Ajoelhou-se, disse 'Obrigado, meu Deus!', enquanto as lágrimas escorriam por seus olhos. A moça deu-lhe a mão. Caminharam juntos de volta para o palácio sem dizerem uma palavra.
O rei e a moça dos cabelos dourados se aproximavam do palácio. A rainha viu, de longe, seu marido. Estranhou. Quem seria aquela moça que ele trazia, segurando pela mão? Correu ao encontro dos dois.
A rainha ainda estava distante dos dois quando perguntou:
  • Quem é você?
A moça dos cabelos dourados respondeu:
  • Eu venho do reino das Águas Claras.
Aquela voz... Parecia tão familiar! A rainha sentiu uma estranha pontada em seu peito. Correu ainda mais rápido tentando alcançar o rei e a moça dos cabelos dourados.
Quando a rainha conseguiu chegar até eles, não podia acreditar no que via! O rei parecia mais moço,mais forte, mais saudável. Finalmente achara a paz que tanto buscava. Estava feliz. A rainha olhou para a moça e não conseguiu conter a emoção. Abraçou-lhe com força e afeto.
  • Eu voltei! - disse a moça.
E então contou sua história. A moça dos cabelos dourados era a princesa Léa, filha do rei e da rainha, que havia desaparecido muitos anos antes. Ela havia sido amaldiçoada por uma bruxa – que foi banida pelo rei – e seus pais acharam que esta bruxa malvada a tinha levado embora.
  • A bruxa nunca me tocou – contou a princesa – porque eu fugi antes! Uma noite, apareceu uma fada em meu quarto e disse 'venha comigo!' e eu fui. Ela me levou para o reino das Águas Claras, onde vivi uma vida de fada durante todos estes anos. Agora, já sei fazer feitiços, poções e mágicas de todo tipo. Tenho muita força e nenhuma bruxa consegue mais me desencantar. Por isso voltei para ficar!
Pai, mãe e filha abraçaram-se com amor. Daquele dia em diante, o rei bondoso foi ainda mais bondoso e o reino, que era feliz, tornou-se ainda melhor. Todos comemoraram a volta da princesa Léa com uma grande festa. E o reino encantado encheu-se de alegrias sem fim!

De tempos em tempos há uma faxina no Céu. Anjos e santos, todos colaboram. Dão uma olhada em todo mundo que mora lá, se estão todos satisfeitos. E então olham para a Terra. Veem quem precisa de carinho, quem precisa de apoio... estas coisas, vocês sabem. E começam a organizar A lista.
A lista é muito simples, mas demora bastante para ser feita. Nela, entram os nomes de todos os anjinhos que estão prontos para descer e fazer baguncinha na Terra. E entram os nomes de todas aquelas que serão mamães. Umas entram porque já pediram à Dona Cegonha. Outras entram por descuido. Outras são surpreendidas: entram porque os anjinhos decidiram assim! E quando a lista está pronta, é festa no céu: vai começar uma nova leva de entregas da Dona Cegonha!
Ela entrou na lista por acaso. Queria muito, muito mesmo estar ali. Mas ainda não tinha feito sua encomenda. Ainda assim, os anjinhos acharam que ela poderia ser mamãe. Seu nome era Vanessa, e ela estava para se tornar uma mamãe.
Mas às vezes os anjinhos erram e colocam nomes demais na lista. Ela estava muito feliz em receber a visita da Dona Cegonha, mas foi informada que ela não viria. Seu anjinho não podia descer ainda, tinha que ficar no Céu. Ela ficou muito triste, mas entendeu.
Passou mais um tempo, vieram novas faxinas e novas listas. O nome de Vanessa não voltou a ser citado e ela achou que tinham se esquecido dela. Planejou outras coisas, traçou novas metas, sonhou outros sonhos. Seguiu com a vida.
Um dia, estavam nomeando as novas mamães, e os anjinhos, ansiosos, esperavam para ver para onde iriam. Um pequenino anjo não parava quieto: pulava de nuvem em nuvem, dava cambalhotas, ria sem parar. Os outros começaram a ficar preocupados – o anjinho parecia estar ligado em uma tomada de 220 volts! Ficaram pensando e pensando quem poderia ser a mamãe daquela criatura tão linda, bagunceira e arteira. Olhavam e reolhavam a lista. Parecia que não haveria ninguém à altura do desafio.
O pequeno anjinho continuava na sua farra tremenda, alheio às preocupações dos demais, até que lhe disseram: 'você não vai descer à Terra. Melhor ficar por aqui. Ninguém lá embaixo vai aguentar o seu ritmo...' O pequeno anjo riu e disse: 'vai, sim! Vocês estão na dúvida? Então deixa que eu mesmo escolho!' - e, dizendo isto, deu um salto no ar, sem que os demais tivessem tempo de segurá-lo.
Dona Cegonha teve que voar rápido para pegá-lo – 'está doido, menino?' - reclamava enquanto ele ria de sua aventura. A descida , no geral, foi tranquila. Quando se aproximavam da Terra, Dona Cegonha olhou para ele e perguntou: 'então, para onde vamos?'
O pequeno anjo olhou para a Terra. Viu tantas moças bonitas, tão carinhosas! Uma delas serviria para ser sua mamãe, com certeza! E foi então que, no meio delas, ele a viu.
Ela estava fazendo mil e uma coisas ao mesmo tempo. Gostava de sair à noite, se divertir com os amigos, namorar. Tinha pique para fazer tudo isto, e ainda estudar e curtir um samba. O anjinho olhou e riu. 'Ali!', e apontou para Vanessa, 'aquela vai ter bastante energia para cuidar de mim!"
E assim foi que , um belo dia, ele chegou. Vanessa, agora, era mamãe afinal! E de um anjinho travesso e faceiro cuja bateria não acaba nunca! Enzo realmente gosta de fazer arte e deixa todo mundo de cabelos em pé. A mamãe foi muito bem escolhida. Corre atrás dele, ri de suas façanhas. Não perde o bom humor e nem o pique, gosta de ter um menininho tão levado.
De vez em quando alguém, pergunta como ela não arranca os cabelos com as traquinagens do filho: 'ele apronta tanto, você não tem medo que se machuque?' Vanessa ri o sorriso de quem sabe das coisas. E responde:' Papai do Céu sabe bem o que faz. Enzo apronta e apronta sem parar, é levado por demais. Mas tem, lá no céu, alguém que olha por nós: um anjinho só nosso, que impede o travesso de se machucar...'
É, Vanessa está certa. Eles tem mesmo um anjinho muito especial no céu a olhar por eles. E, aqui na Terra, tem mais do que isso. Tem um ao outro, num amor infinito que não tem tamanho, não tem medidas, não tem razão. Um amor que é maior do que tudo e supera qualquer pedra no meio do caminho. Um amor tão gigante que os toma por completo, e os faz, assim, tão felizes juntos!
Em um pequeno reino encantado houve, uma vez, uma princesa diferente. Ela não nasceu querendo ser princesa, apenas nasceu assim. Tinha que seguir as regras do reino e fazer tudo o que lhe diziam, pois estas eram as condições de ser princesa. Só que ela não topava esta ideia, e acabou mudando toda a sua história...
Chamava-se Vanessa, a princesa. E tinha um sonho: queria ter um príncipe em sua vida. Até aí, toda princesa quer, vocês dirão. Mas ela não queria um príncipe da mesma forma que as outras – todas buscavam um príncipe encantado. Ela buscava algo maior. Muito maior.
Em sua busca por um príncipe, apareceram vários candidatos em seu caminho. Um deles lhe pareceu tão bonito e corajoso que ela se encantou. E achou que deveria tornar este amor algo real, tocável. E foi assim que Vanessa mandou uma cartinha à Dona Cegonha, que dizia assim:

'Dona Cegonha, me mande um alguém
que me faça feliz e a quem eu queira bem
Pode ser loiro , pode ser moreno
Que venha com o coração tranquilo e o rosto sereno!'

Dona Cegonha disse que a atenderia, e princesa ficou muito contente. Ficou esperando, ansiosa, por sua encomenda. Só que Dona Cegonha fez uma contagem errada, e a encomenda não desceu à Terra. Mandou um recadinho à princesa, explicando tudo tintim por tintim:

'Querida princesa, peço que perdoe, cometi um erro
Trazia a sua encomenda, com meu passinho ligeiro
Mas do Céu recebi uma chamada inesperada
Veja você, fiz uma trapalhada
A sua encomenda eu peguei por engano
Tive que devolvê-la, e sua estrela virou um anjo.'

A princesa Vanessa ficou muito triste. Queria tanto ter recebido a encomenda da Dona Cegonha... Ficou tão tão tão chateada que caiu doente. Os médicos do reino vieram examiná-la e determinaram: 'nada mais de encomendas para a Dona Cegonha!' Vanessa recebeu a notícia e, ao contrário do que pensavam, não se deixou abater. 'A minha hora vai chegar, vocês vão ver!'
E a princesa, que desafiava as leis do reino, mandou uma carta secreta à Dona Cegonha. Nela, apenas uma linha: 'estou pronta, pode vir!' E então, num dia em que o sol brilhava sorrindo no céu ela recebeu a boa nova. Ao acordar, sentiu uma estranha moleza, uma vontadezinha de voltar para a cama. Soube, de imediato: Dona Cegonha atendera ao seu pedido!
Vanessa ficou feliz demais com a novidade e quis contá-la para o reino inteiro. O rei, por sua vez, decretou: ' já que teremos herdeiros, que se faça o casamento real.' A princesa avisou ao pai que queria se ocupar do pequeno e que os outros planos ficariam para mais tarde. Mas o rei não aceitou bem esta situação:
  • Como, herdeiro sem o casamento real?
  • Mas papai, esta não é minha prioridade agora!
  • Tem que ser, tem que ser!
  • Por que?
  • Porque assim são as regras do reino! Porque você é uma princesa, ora essa! Encantou-se com o príncipe, agora trate de casar!
Vanessa poderia ter continuado discutindo. Mas estava tão feliz que não queria perder tempo com bobagens. Deixou o rei falando sozinho e tratou de começar a preparar o enxoval do herdeiro, junto com a ajuda da rainha.
Os meses foram passando, a barriga foi crescendo. O que era um sonho começou a se tornar realidade. Uma realidade assustadora, por vezes. Mais de uma vez os médicos do reino alertaram que o pequeno herdeiro corria perigo, poderia nascer antes do tempo. E a princesa, como sempre, tratou de desafiar as leis do reino:' vai nascer na hora certa!'
E assim foi que a hora certa chegou. O rei, emocionado, estava ao lado da princesa, esperando a chegada do neto. Não pensava mais em casamento real, não pensava mais em regras. Pensava apenas na sua filhinha. Que estava, ela mesma, tenho um filhinho.
Ele nasceu no meio de muita alegria. Tornou-se, logo, o centro das atenções da família. Todo o reino quis vê-lo e admirou sua beleza. A princesa estava orgulhosa. Tinha tido seu pequeno herdeiro!
E quanto ao casamento real... Nunca aconteceu! A princesa diferente, no meio do caminho, percebeu que aquele príncipe era um tremendo dum sapo! Tratou de se livrar dele correndo, não gostava de nada que rastejasse pelo chão e a prendesse à terra. Ela queria ser livre para voar alto, correndo atrás dos seus sonhos. E já que Vanessa era uma princesa diferente, continuou mudando tudo. Deixou a coroa de lado, disse que não tinha nascido para isso. Trocou-a por uma capa e virou super-heroína. Defende o filho, seu reino, seus amores e seu destino. A única coisa que não mudou foi a vontade de ter um príncipe em sua vida. E que agora ela tinha: seu filho, seu príncipe, seu sol: seu Enzo, para sempre.
Era uma vez um pequeno caminhãozinho chamado Tuc. Seu pai era um grande caminhão de transporte e sua mamãe uma van bem grande, destas que cabem uma família inteirinha. Tuc tinha nascido na beira da estrada, onde viviam seus pais, e lá passava seus dias.
Os dias de Tuc eram sempre diferentes. Ele amanhecia em um lugar e dormia em outro, quase todos os dias. Seu pai recebia um chamado e ia atender; Tuc ia junto. De lá, outro chamado,outra cidade, outra pessoa precisando de seus serviços. Pai, mãe e filho levavam a vida na estrada, indo e vindo sem parar.
O que pode parecer uma aventura para alguns, para Tuc era um grande sacrifício. O caminhãozinho não gostava nadinha disto de ficar indo de um lado para o outro o tempo todo. Reclamava, sempre:
  • Mamãe, não dá para pararmos em um lugar de vez, não?
  • Nós vamos onde tem trabalho, Tuc, você sabe disto.
  • Mas não pode ter trabalho em um lugar fixo?
  • O nosso trabalho é este, Tuc, indo para lá e pra cá. As pessoas se mudam, nós as levamos. É uma grande aventura nossa vida!
  • Vida de ioiô, isso, sim!
  • Saiba que tem muita gente que gostaria de poder viajar tanto quanto nós!
  • Pois sim! Se soubessem...
Tuc ficava sempre bastante injuriado com sua vida nômade. Não tinha amigos, cada dia estava em um lugar novo. Seu sonho era poder dormir e acordar todos os dias no mesmo cantinho, ter os mesmos amigos, a mesma vidinha dia após dia. 'Quero vida de árvore', dizia, 'não de ioiô!'. Mas, não tinha jeito. Seus pais recebiam novas encomendas e lá ia a família toda, para lá e para cá outra vez!
O tempo foi passando e Tuc foi se tornando um caminhãozinho murcho, cabisbaixo, trisitinho que só ele. Sua mamãe notou a mudança do filho e, preocupada, foi lhe perguntar o que estava o aborrecendo. Tuc, mais uma vez, disse que não aguentava mais tanta mudança:
  • As pessoas se mudam e nós mudamos também! Mas elas ficam lá, na casa nova, e nós? Quero uma casa nova também!
A mãe sofria muito com a angústia do filho, ms não sabia o que poderia fazer. Este era mesmo o trabalho deles, não tinham como mudar. Foi, então, falar com o marido.
  • O Tuc anda cada vez mais tristonho. Já não sei mais o que fazer!
  • Nós sempre levamos esta vida e sempre gostamos! Por que Tuc não consegue se acostumar?
  • Ele quer ter raízes, quer ter amigos!
  • Ora, é isto? Vou conversar com ele.
O pai de Tuc era um caminhão muito experiente, nasceu e cresceu nas
estradas, transportando mudanças por todo o país. Adorava a vida que levava e queria que seu filho pudesse aproveitá-la também.
  • Tuc, meu filho, precisamos conversar.
  • Sim, papai.
  • Sua mãe disse que você anda muito aborrecido com nossa vida errante.
  • Sim, papai.
  • Por que, meu filho?
  • Porque não temos raízes, não tenho amigos!
  • Tuc, meu filho, por favor.
  • É verdade, papai.
  • Não, não é. Alguém te disse que para ter amigos você precisa estar preso em algum lugar? Que você precisa de raízes para ser feliz?
  • Não, mas...
  • Preste atenção ao que vou te dizer. Você, meu filho, é um sortudo!
  • Sortudo?
  • Sim, claro! A cada dia você tem uma nova oportunidade em sua vida. Cada dia é um novo dia para descobrir algo novo, fazer um novo amigo. Ao invés de se preocupar com os amigos que não tem, preocupe-se com os que pode vir a ter! Eu passei a minha vida inteira nas estradas, tenho amigos por todo lado. Onde vou sou bem querido, onde vou me sinto acolhido. E aí estão as minhas raízes: no pedaço de mim que deixo para trás, em cada amigo que faço, cada abraço apertado, cada beijo de despedida.
Tuc ficou muito impressionado com o que sue pai lhe disse. Depois desta conversa, sua vida mudou. Acordava feliz por estar em um lugar diferente. Pensava: mais um canto para eu conhecer! Fazia amigos por onde passava, deixava um pedacinho seu para trás. E levava pedacinhos de tudo com ele: gente, bicho, carro. Pedacinhos de amizade que faziam suas raízes.
Alguns anos mais tarde, os pais de Tuc se aposentaram e ficaram morando em um mesmo lugar. Tuc continuou levando a mesma vida. Acordava e dormia no mesmo lugar, todos os dias. Mas todos os dias acordava pensando: 'um novo dia, uma nova oportunidade de fazer algo diferente!' E assim passou a vida procurando coisas novas, fazendo novos amigos, deixando para trás pedacinhos seus. E construindo sua vida com pedacinhos de amor dos outros, como todos devem fazer.